quinta-feira, 19 de julho de 2012

Caminhantes...


Caminhantes...
       
Ele vinha de uma jornada de incertezas, dúvidas e angústias, enquanto ela vinha repleta de respostas aprisionantes... Se encontraram assim, meio que sem querer, sem perceber e sem sentir... Se olharam, mas não se viram e passaram... se cruzaram, mas não se tocaram... e a vida seguiu o seu curso.
Ele queria as respostas dela... Ela, as incertezas e a coragem dele. Havia uma paixão pela vida, pelo conhecimento, pela sabedoria... mas havia, também, uma cegueira tão profunda que os impedia de ver que seus caminhos eram incompletos, mas não seria a mera troca de lugar que os preencheria. Ele queria a vida organizada dela, e ela, a liberdade dele. Queriam a infinitude, a completude, a plenitude... da existência, da espiritualidade, da vida e do Amor. Queriam os mesmos quereres e enxergavam ao longe... com muito mais exatidão do que enxergavam o que estava bem à frente. Enxergavam (ou queriam enxergar) o Mundo, o Universo e Tudo o mais, mas não enxergavam a si mesmos. Por vezes estiveram tão próximos... mas sempre tão distantes.
Um carregava em si a porta para outros Universos e o outro a chave, mas jamais cogitaram experimentar esse encaixe promissor... repleto de possibilidades. Havia algo de secular em seus olhares, suas vidas (passadas ou não) e seus caminhos, e, como dois caminhantes, velhos conhecidos, buscantes, errantes e perdidos, caçadores de um Sentido maior que tudo à sua volta, a cada volta do tempo se encontravam, em outros lugares, outras épocas e outras vidas.
Foi assim dessa vez. Venceram o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Venceram a imensidão que separa as almas humanas acinzentadas, aprisionadas em concreto. Se encontraram e se reconheceram de imediato... mas continuavam cegos... há muito não encontravam um semelhante, um ser de mesma natureza, mesm'alma, e tão habituados estavam às suas próprias buscas solitárias que, mais uma vez, se viram, se cruzaram, se olharam, reverenciaram-se e se voltaram para dentro de si, numa interminável busca solipsista.

E então, sonharam.

Encontraram-se em um onírico baile de máscaras, se perderam e se acharam por diversas vezes por entre risos e vozes e música alta. Buscaram-se com os olhos. Ele de negro, ela de branco. Ambos alados. A festa corria, parava, borrava-se. Os rostos outros entravam e saíam de foco. Os corpos os afastavam. As pessoas criavam labirintos humanos. Mas se buscavam e atraíam-se. Para fora da festa, para fora dos limites espaçotemporais.
Perderam-se por entre as sebes do jardim, iluminados apenas pelos raios de uma lua cheia outonal. Seguiam os ecos dos passos sobre as folhas secas, inebriados que estavam pelo cheiro de uma terra recém lavada. Lírios e jasmins aguçavam os sentidos. Ele a desejava com os instintos. Ela o aguardava com a alma. Se viam, mas não se encontravam. Caminhavam e já quase corriam, seus olhos os traíam, a natureza brincava com seus destinos. E, no centro do labirinto de folhas e madeira pulsantes, por caminhos opostos se encontraram... em lados opostos da fonte central. O tempo parou. O vento cessou. A água cristalina refletia, sem uma nuance sequer, a lua cheia acima e as expectativas daqueles olhares. O mundo pulsava ao redor, em silêncio. Contornaram a fonte, caminhando em sentidos opostos, mas havia um magnetismo sustentando aquela troca de olhar de tal modo que caminhavam sem ver mais nada além do Universo do Outro.
Uma canção distante os envolveu, uma flauta, um violino, um bardo... uma melodia medieval. Ecos de outras vidas. Pararam. Olharam-se. Sorveram cada segundo. Caminharam, pela primeira vez em séculos, na mesma direção. Encontraram-se. Olharam-se. Tocaram-se primeiro com os olhos. Sentiram-se, primeiro, com o olfato. Absorveram-se primeiro com os lábios. Inebriaram-se, primeiro, com os corpos. Deitaram-se e... em uma eternidade... Amaram-se. Mergulharam-se e encontraram-se plenos em outras dimensões. Chave e fechadura. Giraram. Encontraram-se e viram-se completos. Juntos viram além e além. Compreenderam o incompreensível. Reviveram suas outras vidas e percorreram, simultaneamente, todos os caminhos. Perderam o fôlego com o êxtase da descoberta. Explodiram juntos, em tamanha plenitude e felicidade. Juntaram-se à terra, à água, em fogo, ao ar.
Olharam-se. E... de repente... a tristeza turvou-lhes o brilho do olhar. Um rasgo de compreensão dissipou o véu da ilusão. Precisariam despedir-se. Voltariam a se desencontrar, porque um êxtase como aquele não deve perdurar mais que a eternidade de um momento imaculado. Andarilhos que são, precisam ainda percorrer outros caminhos. Aprendizes que são, precisam ainda conhecer outros destinos, buscar outros conhecimentos, para que, fontes, jorrem sobre o Mundo. Para que, fontes, não se deixem secar.
E o sonho borrou-se junto com a chuva e a paisagem. E quando voltaram a se procurar já estavam distantes, perdidos na névoa densa do alvorecer. E quando acordaram do sonho, já estavam em outra vida, outros corpos sem memória... Porque eram caminhantes e o sentido de suas vidas era perder-se para se encontrar. Afinal... a cada novo encontro, novas possibilidades... E a pergunta sempre seria... saberão encontrar-se? Ou perder-se-ão sem gozo, sem êxtase, sem plenitude? Caminhantes que eram, precisariam buscar... a cada tempo, cada vida, cada corpo e Universo... uma nova resposta. Mais que Amantes, mais que amigos, aprendizes, errantes, buscantes e perdidos... eram Caminhantes... eternos Andarilhos.

Carolina Grant
(20 de julho de 2012)

 

 

Um comentário:

  1. Lindooooooooo!!!Incrível como toca o fundo da alma .Todos nós já passamos por situações parecidas.E quem nesse mundo ainda não teve tal prazer ,certamente espera que a vida lhes traga uma história assim,nem que seja minimamente parecida.

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