"Suponho que me entender não seja uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca" (Clarice Lispector). Isso poderia ser dito de mim... ou da própria arte, literatura... poesia!
O tempo é fluido
Como o ar...
A sanidade é rarefeita.
E os efeitos da loucura
São mais doces do que as sombras
Da realidade.
Há sempre nuvens escuras lá fora
Há sempre um silêncio inóspito aqui dentro
Será possível domá-lo?
Antes o vazio lúgubre
Que a tristeza travestida
Que traz uma morte lenta, dolorosa e covarde.
As pessoas morreram e continuam andando, sorrindo (débeis).
E estão todos proibidos de contar-lhes a verdade...
Que verdade?
O tempo é fluido
Como o ar
A sanidade é rarefeita
Os sorrisos obtusos
E só o silêncio, às vezes,
É um bom lugar
(Pelos menos, cá ainda se ouvem idéias e fantasias e elas contam um pouco de verdade).
"Rápido, Alice! É tarde!
A realidade a espreita e persegue,
O sonho é presságio,
O momento é fugaz.
Corra, Alice, corra atrás!
Siga o seu rastro,
O sonho!
É presságio,
É momento,
É fugaz!
Corra, Alice, corra!"
Seguiu a passos rápidos de criança,
E, em branco, apressada, esvoaçava.
Deixava um sutil rastro de esperança
E um doce perfume de ilusões onde passava.
De relance, eu a vi e observei com ar sombrio,
Porque a dúvida, velha amiga,
Em meu peito crepitava.
Seguiu, então, por um labirinto tortuoso em cores pálidas.
Quando, de longe, num relance, percebi que me chamava.
"Rápido, Alice! É tarde!
A realidade a espreita e persegue,
O sonho é presságio,
O momento é fugaz.
Corra, Alice, corra atrás!
Siga o seu rastro,
O sonho!
É presságio,
É momento,
É fugaz!
Corra, Alice, corra!"
Corri, escorreguei e percebi
Que pela toca do Coelho adentrava.
Quanto mais eu caía e mergulhava,
A realidade escorria para cima e pelos cantos,
E os fragmentos de verdade, eram tantos!,
Se desfaziam em memórias, ilusões e estilhaços.
Bati no fundo estilhaçado das verdades,
Que em cacos de espelhos confundiam a realidade,
Aumentavam, afunilavam, distorciam
Inebriavam, enganavam e seduziam!
Confusa, então, eu perguntava:
"Onde está o Coelho Branco a me guiar
Neste labirinto de ilusões e fantasias?"
"Não está mais, minha menina" - alguém falava
"Aproxime-se, sente-se, venha experimentar
Tenho bem aqui comigo a solução para lhe dar".
Lá estava, era ela, era a Alice verdadeira quem falava,
Numa mistura surreal de Coelho Branco, bailarina e Fada Azul,
A calmaria em pessoa, parecia, também, a Bruxa Boa do Sul,
Que com seu jeito suave e sutil me convidava.
Por de trás de suas palavras uma espessa névoa ela lançava
E, mais uma vez, sem perceber, em palavras eu escorria.
De um jeito estranho e sério ela sorria,
E mais verdades, aos poucos, eu derramava.
Porém, quando uma hora dei por mim,
Era com aqueles mesmos cacos que ela me apunhalava.
"Espere, um momento, o que é isso, como assim?"
Em pânico, quase aos prantos, eu gritava.
Com movimentos firmes, verdades-armas na mão
Pedaço por pedaço em meu peito ela enfiava
"Não tenha medo, não", fundo nos meus olhos ela olhava,
"Você vai ficar muito melhor, confia em mim", ela clamava.
Sair dali o mais depressa eu procurei,
Mas em areia movediça o chão se transformou.
"E agora, o que eu faço", em desespero eu pensei,
Pois sendo arrastada para ainda mais fundo nesse abismo eu estou.
Então os ecos do Coelho Branco novamente eu ouvi
E para dentro do abismo daquela toca
Talvez sem volta
Exausta. Entregue.
Eu segui.
"Rápido, Alice! É tarde!
A realidade a espreita e persegue,
O sonho é presságio,
O momento é fugaz.
Corra, Alice, corra atrás!
Siga o seu rastro,
O sonho!
É presságio,
É momento,
É fugaz!
Corra, Alice, corra!".
Inebriavam
Transformavam
Nada em tudo
Tudo em nada
E criavam
Imensos vazios
[Quando se afastavam]
Aqueles eram olhos de que todos precisavam.
E no dia em que lhes mergulhei
Eles estavam
Especialmente cinzentos
Ao fundo, abismo imenso
À beira, se encontrava
Vento forte
Cabelos esfumados
Lágrimas e retalhos
Leve, de pluma a quase pássaro
E então caiu
E eu pulei
Atravessei
O vidro dos teus olhos
Mas por entre os meus dedos estirados
Para longe ela escapou
Porque não caiu e, sim, voou
De garota a gaivota
Aos céus
Livre
Se lançou.
O dia clareou
E eu voltei
Para detrás das paredes de vidro daqueles olhos...
Mas aqueles eram olhos de ressaca.
Inebriavam
Transformavam
Nada em tudo
Tudo em nada
E criavam
Imensos vazios
[Quando se afastavam]
Veio, então, a agonia
Porque eu a via
Imobilizado
Por paredes de vidro
Que me mantinham afastado
Mas, inerte, não podia
Permanecer petrificado
Queimando pela necessidade de tê-la
E novamente mergulhá-la
Porque aqueles eram olhos de ressaca.
Materializou-se a agonia.
E quando eu já não a via,
As chamas me tomaram,
Mas também dor já não sentia
Eu a perdia
E me perdia
Nas cinzas daquele desvario.
No auge do delírio,
Quando nada mais havia,
Das cinzas, fênix, ressurgi.
Compreendi.
Agora, sim,
Eis que aos céus lhe poderia seguir.
Voamos lado a lado,
Separados por uma parede de vidro,
Transparente vidro frio daqueles olhos
Foi então que, de repente, percebi
Éramos uma
E juntas-una voávamos
Por detrás do infinito
Daqueles escuros olhos vivos (ondas altas, mar bravio) de ressaca.
Reflex(ã)o Eu quis parar para mergulhar No mar profundo e escuro dos teus olhos, Mas não tive coragem Eu quis parar para investigar A verdade oculta por detrás dos teus olhos, Mas tive medo (do que encontrar...) Eu quis parar para te olhar Mas passei a vida inteira fugindo desses teus olhos, Porque tive receio (deste teu espelho) Eu quis parar Mas esses teus olhos... Estes teus segredos, Os mais profundos, Eu não quis decifrar Eu quis parar E você sabia Da minha covardia E do meu desejo Por isso me parou Num deslize meu E num relance (de canto de olho) Me prendeu Neste teu cruel/fascinante espelho E eu definhei Qual Narciso Nesses teus olhos meus...
Gira, gira, a roda da vida...
Gira e segue girando,
borrando o passado,
reinventando futuros... (possíveis)
Expulsando os incautos
e os moribundos (cansados da vida).
Gira, gira, a roda da vida...
Gira e segue mudando (todos os destinos).
Trocando as saídas,
acelerando.
Revela-nos (antes, por favor) quem somos,
diz-nos... quem realmente fomos.
Gira, gira, a roda da vida...
Gira e segue girando... misteriosa, profunda.
Só não nos deixe cair,
Apenas respirar fundo...
e voltar para os trilhos,
caminhando...
devagar...
cambaleante...
e então... Firme.
Gira, gira, a roda da vida...
Diz-nos os nossos limites.
Fecha as portas passadas.
Sopra-nos os descaminhos
e leva-nos de volta à boa estrada.
Para, apesar dos novos tropeços (e acertos),
seguirmos sempre, sempre, girando (em frente).
Só não nos deixe ficar para trás,
Até o giro final.
No tempo certo,
Na hora certa,
No giro certo.
Gira, gira, a roda da vida...
Gira e segue girando,
Porque os borrões fazem parte de nós
E são eles que fazem as visões do futuro
Ganharem algum contorno (definível)...
Nas necessárias paradas
De cada volta,
De cada giro,
No tempo certo,
Na hora certa,
No giro certo.
Mas, agora, segue.
Segue...
...
.
(Onde e quando irá parar novamente?
Só o tempo, o seu condutor, saberá...
Porque agora, a hora é de girar.
Então... Gira! Segue!).