terça-feira, 26 de junho de 2012

O nascimento do Andarilho... "Crônicas de um Andarilho" (2006/2008)



Crônicas de um Andarilho

E ele pegou um pouco do nada material que tinha e um muito de coisas todas que queria e caiu na estrada da vida de maneira que ninguém poderia detê-lo ou deter-se diante de tamanha vontade de mundo, de chão, de terra, de estrada... um violão seria sua eterna companhia e a porta para onde queria chegar... a terra de ninguém dos corações humanos...
A última vez que o vi, estava sentado debaixo de um velho carvalho, rodeado de olhares distantes, e sua voz macia e experiente enchia o ar de conhecimentos muitos da lida do dia-a-dia... os seus trapos vestidos mistificavam sua figura velada... e essa só aparecia nos olhos aguçados e míopes por trás de lentes velhas...
Eu quis segui-lo um dia, mas a sua vida era a incerteza e sua cúmplice a liberdade... seu trajeto... caminhos infinitos, becos sem saída talvez (o que importa se pode-se dar a volta e seguir em frente)... e nas suas idas e voltas nas voltas do tempo... ele parava com toda a calma dos séculos e sentava em cada esquina da vida para tocar as suas viagens em letras de músicas melodiosas e envolventes como as ondas de um mar aberto... tantos passavam e poucos olhavam... mas, se ao menos um jovem ou um velho ou um homem ou a moça dos pãezinhos de queijo e o companheiro que com ele dividia o banco da praça mais próxima parasse para escutar um pouco as palavras daquele louco viajante... ah...ninguém nunca entenderia aquele sorriso enviesado, tão sincero e simples... eterno enigma aos olhos todos...
...Ele gentilmente tirava o chapéu e não aceitava nada mais que um sorriso recíproco, tão simples e encoberto de histórias muitas que nunca seriam entendidas a não ser por quem as vivia assim de bem perto...
Quiseram prendê-lo, quiseram matá-lo, quiseram amá-lo, mas se há algo mais fluido que o tempo e onipresente que a vida... era o andarilho e suas canções enigmáticas que, dizem por aí, continha os segredos da felicidade, da plenitude do nirvana, da vida eterna ou de como arrancar um sorriso sincero de pessoas humildes que se deixam sentir ou não... ou não... Dizem que ele já salvou mais almas dos que as que cabem no céu... dizem que sua música emocionou os deuses e fez o céu chorar lágrimas de chuva mais de algumas vezes... dizem tanta coisa... mas não dizem quem era o andarilho e onde ele está agora porque está no sempre e no mundo... uma vez o vi, e por um instante breve e fugaz, olhei em seus olhos e compreendi... compreendi o que o levara a viver sua vida nas vidas todas... ele acreditava e tinha um sonho maior que os nossos... um sonho de séculos... um sonho de humanidade... um sonho de ser humano um dia de verdade se Deus o permitisse... e até lá viveria como um simples aprendiz, digo andarilho... tentando aprender e apreender o que era vida e tentando percorrer todos quanto pudesse os seus caminhos...
Uma vez eu o vi e ele tocou para mim a canção que agora conto a vocês, a história de um andarilho comum e suas viagens... Mas isso foi há muito, muito tempo, no tempo em que havia sonhos que levavam as pessoas a segui-los... no tempo em que havia ainda andarilhos e pessoas a ouvi-los em suas anedotas, metáforas de vida viajante...

GRANT, Carolina . Crônicas de um Andarilho. Jornal VERSUS, Faculdade de Direito da UFBA, p. 02 - 02, 10 mar. 2008.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Na última nota...


         Este é um texto antigo, de minha adolescência, mas a sutileza encantadora de suas palavras, a maturidade e a ternura do sentimento externado são atemporais... É a minha homenagem ao Dia dos Namorados, para quem valoriza o Amor, independentemente de ser ou não correspondido. Afinal, certos tons de romantismo nunca perdem o brilho, mesmo quando estamos relativamente plenos e felizes.

Na última nota...

Ouvi uma valsa antiga outro dia, algo que talvez nada tivesse a ver conosco... pelo menos não nessa vida... e surpreendi-me com um aperto no peito, uma saudade inexplicável de algo que nem ao menos chegou a acontecer... uma lembrança querida de uma singela história de dois apaixonados... como se tornou bobo isso hoje em dia, não é? Mas para mim ainda há uma magia nesses momentos... Afinal, sei que, de fato, existe uma saudade imensa de ti... dos teus olhos... da tua voz... do teu cheiro... de você... Queria estar perto... queria que pudéssemos sair dançando pela noite, como se fazia nos filmes de antigamente e queria mais ainda que pudesses sentir, assim como eu, o resplandecer mágico de momentos de sonho como esse... 
         É... sei que nunca amou, sei também que me queres bem... não, não fico triste com isso... Afinal, o que de mais belo há nesse mundo, talvez você mesmo tenha me dado sem se dar conta... me deu o prazer de sentir e sonhar algo novo e inusitado, abriu-me uma porta para um mundo ideal e perfeito, belo e simples, emotivo, sensível, lindíssimo... onde não há pressa, correria, alvoroço, nem gritos, exigências, cobranças ou raiva ou inveja... só uma angústia adocicada, uma ansiedade palpitante e suave, uma expectativa de uma felicidade incontida, uma saudade aconchegante, uma melancolia... uma vontade de lágrimas doces, um sorriso furtivo de amor... É, esse presente você me deu, posto que mais belo, eterno e acolhedor é amar simplesmente ao Amor, mais até que à pessoa amada...
Mas... em momentos de música cândida e melodiosa como a valsa antiga que hoje escuto... ainda lembro de ti e o querias por perto, quem sabe sentindo o mesmo que eu... nem que fosse numa única noite... em um sonho lindo e distante... sonho que sonho hoje, e para mim, és belo e real em teu olhar terno e admirador...
Experimenta, meu querido, sentir o que com toda amizade e ternura te digo... se não, nunca viverás por completo... Sonha... sonha um lindo sonho de amor, meu querido, que o meu... infelizmente... em triste fim se acabou...na última nota... a última que agora tocou...
 
Salvador, 12 de junho de 2012.
C. Grant






sábado, 3 de março de 2012

Crônicas de um Andarilho: a essência da mulher mais velha (Prelúdio: Perfume de Mulher).

           

"Foi quando ela se viu no espelho, primeiro em nuance, depois de corpo inteiro... a toalha escorregou, como que intrusa, indesejada, desnecessário prelúdio... Que ela se viu de fato... como nunca deixara de ser... Mulher... E teve consciência de toda a sua feminilidade. Uma convicção íntima, profunda, que nunca abandonara seu corpo, mas estivera contida nos recônditos de seu inconsciente. Linda, exuberante, misteriosa, experiente, Mulher... como nunca deixara de ser, mas agora com um vigor renascido pelo encontro consigo mesma. Todo o seu corpo exalava um perfume... um Perfume de Mulher". (in Crônicas de um Andarilho: a essência da mulher mais velha). 

Coming soon...

Carolina Grant
(29 de fevereiro de 2012).

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ode a Morpheus. Son(h)o eterno.


Ode a Morpheus. Son(h)o eterno.

Perco-me do dia
Para encontrar-me com a noite... e a sua imensidão.
E para encontrar-me com os mais belos sonhos... a mais doce ilusão,
Perco-me da razão crua e fria...

E se me perco das mais tradicionais convenções
Será para encontra-me, de fato, com a minha mais pura essência
Ou será para perder-me ainda mais em mim, sem clemência
Que vago a esmo, abismo e(in)terno, sob vozes, soturnas canções?

Seria a liberdade uma adorável prenda?
Ou a porta para a loucura, a mais primitiva a que chegaste?
O desvario mais fascinante a que almejaste?
Ou seria apenas mais uma plausível oferenda (do Destino)?

Já não saberia dizê-lo, senão que sim... perco-me do dia... (a cada dia mais)
Das horas, do espaço, das regras... faço palavras ao vento.
Vem, pois, Morpheus, em seu corcel negro... meu cálido alento....
E leva-me, pois perder-me, é fato, há muito eu já iria.

Carolina Grant
(10 de janeiro de 2012).

Primeira poesia do ano: Entrega.


Entrega.

 É nesse estado livre... de loucura,
 Que liberta os meus anseios,
 Meus desejos e paixões,
 E me possui
 Mais do que a carne,
 A alma,
 Que a ti me entrego... sôfrega... ou plácida.

 Dispo-me, pouco a pouco, de tudo o que à terra me prende,
 Do sono, da fome, da fadiga.
 Entrego-me sem delongas, sem amarras
 Sem pudores, tu me entendes?
 Porque só assim...
 Desnuda...
 Vestida apenas de desejos,
 Entregue ao desvario,
 É que me torno tua taça e tua fonte.

 Preenche-me com o teu divino néctar,
 Ó gloriosa Poesia,
 E faz-me jorrar...
 Sobre os incautos, pobres de alma,
 Posto que a ti sou a mais devota,
 E o mundo precisa do teu alimento,
 Alimento d'alma, do espírito, do corpo e da eternidade.

 Eterniza-te, a ti entrego-me,
 Vive e prolifera-te...
 Vem agora, sem demora,
 Manifesta-te,
 Minha musa, minha Deusa,
 Inestimável... Inebriável
 Senhora de todos os encantos.

Carolina Grant
(08 de janeiro de 2012).

Não-ditos...

 
A magia do poeta encontra-se justamente no não-dito...

Carolina Grant
Insights de 2011.

Sobre a vida, o tempo e tudo o mais...


Às vezes eu sinto que não posso parar, 
Se parar... 
                                               a Vida me atropela.

Carolina Grant
Insights de 2011.