terça-feira, 26 de março de 2013

A Assassina Convidada ou... A Convidada Inesperada


A Assassina Convidada

Foi mesmo à queima roupa.
Sem meandros, sem melindres, sem discursos.
Não, não foi como final de filme de herói.
Ela não fez o discurso dos vilões (sequer saboreou a vitória ou o prazer de ver o horror da compreensão nos olhos outros; não precisava...).

Não, não foi como um tapa na cara
Ou um soco no estômago.
Mas fria como aço.
Cortante como uma navalha... (daquelas bem preparadas).

Foi rápida, não durou mais que alguns segundos.
Eficiente e certeira, não deixou dúvidas sobre o resultado.
Mas aquele momento duraria por toda uma eternidade.
Os gritos de injustiça e horror podem ser ouvidos até hoje (nas noites mais frias e escuras de Agosto).

Doeu uma dor conhecida.
A dor de todas as dores 
Dor já há muito doída
Em incontáveis casos como esse, cotidianos.

...

É, foi mesmo a queima roupa.
Covarde como todas aquelas que chegam sorrateiras (quando não são bem-vidas) ou simplesmente surpreendem (quando gentilmente convidadas).
Desestruturante, como tudo o que é absolutamente inesperado.
Fatal, como tudo o que nos rouba (leva a) o chão e o Sentido.

Quando virou as costas ao corpo que se esvaia em sonhos ao chão 
Foi que pude identificá-la.
Claro... cruel, silenciosa, fria e fatal,
Só poderia ser ela a Convidada inesperada:

Veritas...
   Verité...
       Verità... (Vendetta?)

                                             Verdade.

Carolina Grant
(26/03/2013)

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Fragmentos de Natal...


Fragmentos de Natal
ou...
Pedacinhos de coisas brilhantes interiores que a gente só vê nessa época do ano espalhadas por aí

Foi então que a garotinha de olhos graúdos e inquietantemente perspicazes tomou coragem e foi falar com ele. Ela já o vinha observando há algum tempo, do seu canto favorito da sala, perto da árvore toda decorada e do gato gorducho de pelo fofinho da Tia Clara, perguntando-se se deveria ou não abordá-lo do seu jeito costumeiro de fazer perguntas certeiras. Já estava ficando cansada, também, de fazer as vontades do velho Rabicho, eternamente ronronante por carícias, sobretudo de uma mãozinha pequena, macia e delicada com a dela, e precisava entreter-se com outra coisa, além, é claro, de acompanhar tudo e todos à sua volta nos mínimos detalhes (!) E, é preciso registrar, ela sabia (não havia a menor dúvida nesse sentido) que ele teria uma resposta legal. Ele era o único que parecia realmente estar participando daquilo tudo da mesma forma que ela. Ou seja, completamente deslocados no meio de tantas pernas, luzes, vozes e pessoas grandes, mas absolutamente absorvidos com o que observavam e com o clima daquele momento-lugar. Foi o sorriso aberto, sincero e seguro dele, mais para si mesmo que para qualquer pessoa, de quem tudo sabe e percebe, que lhe deu confiança para ir até lá. Falariam a mesma língua.
Ela atravessou o Salão (não era assim uma sala tão grande, mas, quando você tem cinco anos e um metro de altura, bom, você também foi criança e sabe que o mundo torna-se muito maior do que realmente é). Esquivou-se aqui e ali dos garçons, que mal a enxergavam passar por entre as suas pernas, passou por cima de uma ou outra cadeira para cortar caminho (não sem alguma dificuldade, mas isso tudo tornava a coisa ainda mais divertida, roubando um sorriso maroto daquela carinha redonda e divertida).
Ele estava onde parecia estar sempre, na porta da varanda, na linha tênue entre o estar fora e o estar dentro, no lugar e no ângulo perfeito para um bom e experiente observador, encostado na pilastra, displicentemente, como se tivesse estado ali desde sempre, só sendo percebido, quase sem querer, quando alguém chegava muito perto. Confundia-se com o ambiente, mas, ao mesmo tempo, parecia garantir-lhe um equilíbrio invisível.
Ela chegou de mancinho, acomodou-se em uma mesinha baixa ao lado dele e lançou a sua pergunta a queima-roupa, sem o menor pudor: – O que você gosta no Natal?
Ele deu uma baforada e apagou o cigarro para falar com a garotinha, com a tranquilidade e o semblante sério, ainda que sereno, de quem pondera seriamente sobre uma pergunta muito, muito importante. Colocou as mãos no bolso da calça jeans, olhou para algum ponto abstrato à sua frente, depois para baixo e novamente para aquele mesmo ponto e respondeu com o conforto e a intimidade de quem já conhecia aquela garotinha há bastante tempo e sem nenhum traço de que fora surpreendido pela pergunta inesperada, vinda de uma interrogadora ainda mais inesperada...
Gosto dos sorrisos furtivos... que a gente pesca por aí justamente nessa época... desses que saem quase sem querer, porque a pessoa não consegue nem segurar – disse, por fim, desmanchando toda aquela seriedade reflexiva no seu bom e velho sorriso largo e sincero, daqueles que dão um abraço capaz de acolher o mundo inteiro, agora olhando diretamente para a criaturinha ao seu lado.
Por que você gosta tanto deles? – devolveu a garotinha, com um brilho nos olhos de quem confirmava a certeza que a conduzira até ali e estava decidida a seguir na conversa.
Bom... porque são como pontinhos de luz, sabe? Que se espalham por aí e vão meio que contagiando todas as pessoas – ele fez uma pequena pausa enquanto a garotinha avaliava aquela resposta e foi a vez dele de devolver a pergunta: – E você? O que você mais gosta?
Ela já podia imaginar aquela pergunta. Estavam conversando como iguais e nada mais natural do que o fato de ele querer ouvi-la, também, sobre a mesma questão, naturalmente.
Eu gosto desses pontinhos também... Na verdade, gosto de todos os pontinhos de luz do Natal, desses que as pessoas espalham pelas casas e pelas ruas, desses que brilham no rosto delas e que brilham delas mesmas... sei lá... todos esses pontinhos de luz me fazem ver estrelas em mim, mesmo quando fecho os olhos e mesmo quando tudo o mais é escuro... e então tudo parece tão... bom... – e sorriu o seu melhor sorriso para ele.
Ele sorriu de volta e a compreensão era perfeita.
Eles voltaram a atenção, então, os dois, para o passatempo preferido de ambos: aquele maravilhoso universo humano à sua frente e simplesmente... todas as coisas. Olhavam o mundo com os mesmos olhos, ainda que com histórias completamente diferentes.
A Garotinha de cinco anos e o Andarilho (cuja idade nós nunca conseguimos identificar bem ao certo, porque parece ter eternamente uns trinta e cinco e, ao mesmo tempo, a idade do universo) formavam um par bem curioso, sentados no tampo de uma mesa baixa, no meio de uma festa de Natal, completamente imersos e, ao mesmo tempo, alheios àquele mundo, envoltos, ainda, em um diálogo falado ou mudo extremamente interessante. Eram eternos admiradores dos fragmentos mundanos, natalinos ou... simplesmente..., para falar na linguagem deles, dos pedacinhos de coisas brilhantes interiores que a gente só vê nessa época do ano espalhadas por aí...


Salvador, 12 de dezembro de 2012.
Carolina Grant



sábado, 24 de novembro de 2012

Artist Trading Card (ATC) - Cartões Artísticos de Troca


        Hoje ocorreu em Salvador, pela primeira vez, um evento bem interessante: um troca-troca de cartões artesanais, feitos por artistas e não-artistas, na galeria do ACBEU (Corredor da Vitória, SSA/BA). A ideia é explicada, em linhas gerais, na imagem abaixo:


         Eu adorei a proposta do evento (organizado por Bruno Marcello e Juliana Moraes) e, como não tenho muitas habilidades artísticas manuais, "criei" os meus cartões com trechos de poesias e algumas imagens para ilustrá-los, sobretudo algumas das minhas preferidas da Jana Magalhães (http://www.janamagalhaes.com/).

          O resultado, vocês conferem abaixo!


sábado, 29 de setembro de 2012

In pieces...



Ilusão, que a um doce olhar não sustentou-se
Luziu uma última vez e em vão desfez-se
Para não ferir, para não matar
Rachou-se em partes
Fragmentos
Palavras
Poesia
.

Carolina Grant
(29/09/2012)





domingo, 29 de julho de 2012

Por que chove...


Por que chove...

Chove porque o tempo corre, o mundo avança 
e só a chuva borra a realidade e nos dá a ilusão de um sonho.


Carolina Grant

Como se fosse a primeira vez...

Poema de 01 minuto - Homenagem ao Dia do Escritor.

Como se fosse a primeira vez...

Olhou, como se descobrisse
Descobriu, como se soubesse
Sabia, como se sentisse
Sentia, como se imaginasse
Imaginava, como se amasse
Amava, como se morresse
Morreu, como se (re)vivesse
Viveu, como se eternizasse
Eternizou... para sempre...
Como se olhasse... pela primeira vez.

(Carolina Grant - 25 de julho de 2012 - 23h59min.)


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Caminhantes...


Caminhantes...
       
Ele vinha de uma jornada de incertezas, dúvidas e angústias, enquanto ela vinha repleta de respostas aprisionantes... Se encontraram assim, meio que sem querer, sem perceber e sem sentir... Se olharam, mas não se viram e passaram... se cruzaram, mas não se tocaram... e a vida seguiu o seu curso.
Ele queria as respostas dela... Ela, as incertezas e a coragem dele. Havia uma paixão pela vida, pelo conhecimento, pela sabedoria... mas havia, também, uma cegueira tão profunda que os impedia de ver que seus caminhos eram incompletos, mas não seria a mera troca de lugar que os preencheria. Ele queria a vida organizada dela, e ela, a liberdade dele. Queriam a infinitude, a completude, a plenitude... da existência, da espiritualidade, da vida e do Amor. Queriam os mesmos quereres e enxergavam ao longe... com muito mais exatidão do que enxergavam o que estava bem à frente. Enxergavam (ou queriam enxergar) o Mundo, o Universo e Tudo o mais, mas não enxergavam a si mesmos. Por vezes estiveram tão próximos... mas sempre tão distantes.
Um carregava em si a porta para outros Universos e o outro a chave, mas jamais cogitaram experimentar esse encaixe promissor... repleto de possibilidades. Havia algo de secular em seus olhares, suas vidas (passadas ou não) e seus caminhos, e, como dois caminhantes, velhos conhecidos, buscantes, errantes e perdidos, caçadores de um Sentido maior que tudo à sua volta, a cada volta do tempo se encontravam, em outros lugares, outras épocas e outras vidas.
Foi assim dessa vez. Venceram o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Venceram a imensidão que separa as almas humanas acinzentadas, aprisionadas em concreto. Se encontraram e se reconheceram de imediato... mas continuavam cegos... há muito não encontravam um semelhante, um ser de mesma natureza, mesm'alma, e tão habituados estavam às suas próprias buscas solitárias que, mais uma vez, se viram, se cruzaram, se olharam, reverenciaram-se e se voltaram para dentro de si, numa interminável busca solipsista.

E então, sonharam.

Encontraram-se em um onírico baile de máscaras, se perderam e se acharam por diversas vezes por entre risos e vozes e música alta. Buscaram-se com os olhos. Ele de negro, ela de branco. Ambos alados. A festa corria, parava, borrava-se. Os rostos outros entravam e saíam de foco. Os corpos os afastavam. As pessoas criavam labirintos humanos. Mas se buscavam e atraíam-se. Para fora da festa, para fora dos limites espaçotemporais.
Perderam-se por entre as sebes do jardim, iluminados apenas pelos raios de uma lua cheia outonal. Seguiam os ecos dos passos sobre as folhas secas, inebriados que estavam pelo cheiro de uma terra recém lavada. Lírios e jasmins aguçavam os sentidos. Ele a desejava com os instintos. Ela o aguardava com a alma. Se viam, mas não se encontravam. Caminhavam e já quase corriam, seus olhos os traíam, a natureza brincava com seus destinos. E, no centro do labirinto de folhas e madeira pulsantes, por caminhos opostos se encontraram... em lados opostos da fonte central. O tempo parou. O vento cessou. A água cristalina refletia, sem uma nuance sequer, a lua cheia acima e as expectativas daqueles olhares. O mundo pulsava ao redor, em silêncio. Contornaram a fonte, caminhando em sentidos opostos, mas havia um magnetismo sustentando aquela troca de olhar de tal modo que caminhavam sem ver mais nada além do Universo do Outro.
Uma canção distante os envolveu, uma flauta, um violino, um bardo... uma melodia medieval. Ecos de outras vidas. Pararam. Olharam-se. Sorveram cada segundo. Caminharam, pela primeira vez em séculos, na mesma direção. Encontraram-se. Olharam-se. Tocaram-se primeiro com os olhos. Sentiram-se, primeiro, com o olfato. Absorveram-se primeiro com os lábios. Inebriaram-se, primeiro, com os corpos. Deitaram-se e... em uma eternidade... Amaram-se. Mergulharam-se e encontraram-se plenos em outras dimensões. Chave e fechadura. Giraram. Encontraram-se e viram-se completos. Juntos viram além e além. Compreenderam o incompreensível. Reviveram suas outras vidas e percorreram, simultaneamente, todos os caminhos. Perderam o fôlego com o êxtase da descoberta. Explodiram juntos, em tamanha plenitude e felicidade. Juntaram-se à terra, à água, em fogo, ao ar.
Olharam-se. E... de repente... a tristeza turvou-lhes o brilho do olhar. Um rasgo de compreensão dissipou o véu da ilusão. Precisariam despedir-se. Voltariam a se desencontrar, porque um êxtase como aquele não deve perdurar mais que a eternidade de um momento imaculado. Andarilhos que são, precisam ainda percorrer outros caminhos. Aprendizes que são, precisam ainda conhecer outros destinos, buscar outros conhecimentos, para que, fontes, jorrem sobre o Mundo. Para que, fontes, não se deixem secar.
E o sonho borrou-se junto com a chuva e a paisagem. E quando voltaram a se procurar já estavam distantes, perdidos na névoa densa do alvorecer. E quando acordaram do sonho, já estavam em outra vida, outros corpos sem memória... Porque eram caminhantes e o sentido de suas vidas era perder-se para se encontrar. Afinal... a cada novo encontro, novas possibilidades... E a pergunta sempre seria... saberão encontrar-se? Ou perder-se-ão sem gozo, sem êxtase, sem plenitude? Caminhantes que eram, precisariam buscar... a cada tempo, cada vida, cada corpo e Universo... uma nova resposta. Mais que Amantes, mais que amigos, aprendizes, errantes, buscantes e perdidos... eram Caminhantes... eternos Andarilhos.

Carolina Grant
(20 de julho de 2012)